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QUINTAL PRODUTIVO: UMA PRÁTICA ANCESTRAL REVOLUCIONÁRIA

  • Foto do escritor: Gustavo Raphael de Oliveira
    Gustavo Raphael de Oliveira
  • 10 de jun.
  • 4 min de leitura

Transformação da relação homem, terra e alimento


O Censo Demográfico de 2022 do IBGE apontou que 87,4% da população brasileira reside em áreas urbanas, representando 177,5 milhões de pessoas. Os dados também mostram que pela primeira vez foi registrado decréscimo da população rural em todas as regiões do país.


A modernização dos processos de produção no campo, ocasionados pela Revolução Verde, em meados do século XX, ajudam a compreender os dados observados no censo. A modernização levou ao êxodo rural e a urbanização desenfreada da população brasileira, transformando o perfil da mão de obra e a forma de se relacionar com a terra.

Atualmente, a agricultura comercial utiliza extensas áreas de terra, onde se produz muito, com acentuado uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos. Contudo, os avanços tecnológicos e a industrialização não trouxeram somente vantagens na produção de alimentos, também, contribuíram negativamente para a mudança da maneira como as pessoas lidam com o alimento, rompendo com o modo e costume ancestral.


Essa mudança pode ser corroborada ao observar os dados do projeto “monitoramento da rotulagem de alimentos no Brasil”, conduzido pelo Ministério da Saúde, Anvisa e Opas, que identificaram que 62% dos novos alimentos embalados comercializados no Brasil, no período entre novembro de 2020 e novembro de 2024, eram ultraprocessados. Outro dado foi o apontado por estudos lançados no ano de 2025 na revista científica The Lancet, que evidenciaram que a participação de ultraprocessados na alimentação brasileira subiu de 10% para 23% nas últimas quatro décadas.


As informações das recentes pesquisas são preocupantes, pois esse tema não é somente sobre alteração de costumes alimentares, mas também sobre saúde pública. Pesquisa publicada em 2023 na revista científica American Journal of Preventive Medicine, associa o consumo de alimentos ultraprocessados a 10% das mortes precoces no Brasil. Já outro artigo publicado na JAMA Neurology, em 2022, relaciona os ultraprocessados à aceleração do declínio cognitivo.


Relatório produzido pelo pesquisador Eduardo Nilson, da Fundação Oswaldo Cruz, a pedido da organização não governamental ACT Promoção da Saúde, em 2024, apresenta estimativas de custos com tratamento pelo SUS de doenças desenvolvidas pelo consumo de ultraprocessados. O relatório atribui o custo de R$ 933,5 milhões por ano aos cofres públicos com o tratamento de diabetes, hipertensão e obesidade.


Uma alternativa: quintal produtivo

No livro “A terra dá, a terra quer”, Nego Bispo rememora sua infância, onde se alimentava de frutas nativas ao caminho de sua casa. No entanto, após a chegada do agronegócio, tudo aquilo que não era considerado mercadoria já não prestava mais, fazendo com que mudassem seus hábitos alimentares.


A partir dessa problematização, pode-se observar que de fato o ser humano, principalmente a população urbana, se distanciou do ambiente natural, de modo que se perdeu a relação com o alimento, muitas vezes desconhecendo sua origem. É um alimento orgânico? É um produto transgênico? Ultraprocessado ou não? Estou me alimentando de veneno? Isso é saudável?


Na busca em responder tantas questões e reduzir a distância entre o homem e a natureza, mitigando os danos causados pela má alimentação, talvez seja preciso relembrar a reflexão defendida por Ailton Krenak, que aborda sobre a necessidade de pararmos de nos desenvolver e começarmos a nos envolver mais.


E uma forma do ser humano voltar a se envolver pode ser por meio dos quintais produtivos. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, os quintais produtivos são “áreas de produção diversificada de alimentos saudáveis, sementes e insumos, fundamentais para a soberania e a segurança alimentar”. Além disso, se caracteriza como um local de articulação social, cultural, ambiental e política, podendo ser um espaço de geração de renda e construção e fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários.


Os quintais agroflorestais datam de antes da colonização em nosso país, sendo uma prática realizada pelos indígenas. Assim sendo, é uma prática enraizada nos saberes ancestrais e difundida por mulheres agricultoras, que se mostram como detentoras desse conhecimento e responsáveis por sua difusão para as gerações futuras (LEAL et al., 2020).


Muitas vezes os quintais produtivos são relacionados a população rural, principalmente do semiárido, entretanto, mudar essa percepção é extremamente importante. Compreender que esse modelo pode trazer benefícios para a saúde, segurança alimentar e fazer com que a população urbana possa voltar a ter maior contato com a terra e com o seu alimento, é uma revolução ancestral.


Como estruturar um quintal produtivo

De acordo com o Programa Quintais Produtivos das Mulheres Rurais, criado pelo Governo Federal em 2023, a estruturação de um quintal produtivo começa com o planejamento e segue os seguintes passos:

  • Escolher uma área próxima à residência para a produção; 

  • Definir o que será cultivado ou criado no espaço. O ideal é integrar hortaliças, frutas, plantas medicinais e a criação de pequenos animais;

  • Priorizar o uso de adubo orgânico, o manejo sustentável do solo e sistemas de irrigação eficientes. Essa estratégia otimiza o uso do espaço e da água, além de garantir alimentos saudáveis para o consumo; 

  • Colher para consumo das próprias famílias e/ou comercialização do excedente.


Fonte: Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura familiar (2026).
Fonte: Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura familiar (2026).


Referências Bibliográficas


BRASIL. Ministério da Saúde. Relatório aponta que, em quatro anos, 62% dos novos alimentos embalados comercializados no Brasil eram ultraprocessados. Brasília: Ministério da Saúde, 2025.


BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar. Agricultura familiar: saiba como estruturar quintais produtivos para a soberania alimentar. Brasília: Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, 2026.


BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar. Programa quintais produtivos para mulheres rurais. Brasília: Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, 2026.


GONÇALVES, N. G.; FERREIRA, N. V.; KHANDPUR, N. Association between consumption of ultraprocessed foods and cognitive decline. JAMA Nurology, v.80, n.2, 2022.


INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo 2022: 87% da população brasileira vive em áreas urbanas. IBGE, 2024.


KRENAK, A. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.


LEAL, L. S. G. et al. Quintais produtivos como espaços da agroecologia desenvolvidos por mulheres rurais. Perspectivas em Diálogo, Naviraí, v. 7, n. 14, p. 31-54, 2020.


NILSON, E. Estimação dos custos diretos e indiretos da obesidade, diabetes e hipertensão atribuíveis ao consumo de produtos alimentícios ultraprocessados na população adulta do Brasil: relatório 2. ACT Promoção da Saúde, 2024.


NILSON, E. et al. Premature Deaths Attributable to the Consumption of Ultraprocessed Foods in Brazil. American Journal of Preventive Medicine, v. 64, n. 1, p. 129-136, 2023.


SANTOS, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora/Piseagrama, 2023.


UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Consumo de ultraprocessados só irá cair com enfrentamento das grandes indústrias. Jornal da USP, São Paulo, 2025.

1 comentário


KATIA SANTOS PAIXAO
KATIA SANTOS PAIXAO
12 de jun.

Gustavo, parabéns por seu artigo, me senti mais motiva a colocar em prática um sonho que já venho nutrindo a algum tempo de fazer uma mudança radical e planejada em meu quintal, tornando-o produtivo e de certa forma terapêutico.

Obrigada pelas dicas de como estruturar um quintal produtivo.


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