SERÁ QUE REALMENTE O AGRO É TECH, É POP E É TUDO?
- Gustavo Raphael de Oliveira

- há 1 dia
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A campanha institucional voltada a popularização do agronegócio lançada em 2016 pela Rede Globo, maior emissora de telecomunicação do Brasil e da América Latina, foi e continua sendo um grande sucesso. O slogan, que neste ano completa 10 anos desde seu lançamento na TV, “agro é tech, agro é pop, agro é tudo” é facilmente relacionado ao agronegócio pela população brasileira, podendo ter alcançado seu objetivo de repaginar o imaginário acerca da agropecuária nacional.
No artigo “A campanha publicitária ‘Agro é tech, agro é pop, agro é tudo’, da Rede Globo de Televisão, como difusora da propaganda sobre o agronegócio no Brasil”, publicado em 2019, os autores apontaram que a união entre grandes produtores agropecuários e empresários do setor com a maior emissora nacional conseguiu edificar uma imagem positiva dos sistemas de produção, criando uma percepção do agronegócio como um setor de grande possibilidade de riquezas e o Brasil como seu dependente social e econômico.
Atualmente, também há projetos que visam promover uma reconstrução do conhecimento histórico e visão da agropecuária na área educacional, como os desenvolvidos pela Associação De Olho no Material Escolar. Em sua página na Internet, a organização cita que seu surgimento se deu após a observação de uma “significativa desinformação sobre o setor agropecuário nos materiais escolares no Brasil”, de tal modo que a associação busca contribuir com a modernização do material didático.
Nota-se que o setor agropecuário tem investido fortemente para dar novos ares a temática agro e mudar a percepção nacional, construindo uma imagem mais positiva, com avanços tecnológicos, alta produtividade e garantia de segurança alimentar. A partir desta análise, é importante se questionar, antes de comprar a ideia, se realmente o agro é tech, é pop e se é tudo isso mesmo.
O agro é tech, tem sido pop e tem impactado quase tudo
O Brasil tem em seu cerne a agricultura, esta atividade remonta desde o período colonial com a produção de cana de açúcar pela mão de obra escrava, passando pelo próspero período do café e chegando até o momento da Revolução Verde e seus avanços tecnológicos. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), criada em 1973, foi importante para o desenvolvimento tecnológico e avanços da agropecuária para o centro do Brasil, região predominantemente de Cerrado.
A agricultura intensiva praticada no país, aliada a conhecida agricultura 4.0, se utiliza de drones, IA, IoT, sensores, maquinários, fertilizantes químicos, agrotóxicos, biotecnologia, entre outros. Todo esse arsenal contribui para o Brasil ser um dos maiores produtores e exportadores agrícolas do mundo. Contudo, vale observar o que se produz e qual sua finalidade.
De acordo com dados da Conab, ao comparar os índices de produtividade e área cultivada das safras de 2020/2021 e 2025/2026, observa-se que a produção de milho no Brasil subiu cerca de 59%, tendo um aumento em área plantada de 10%. A soja apresentou aumento de produção de aproximadamente 28% e ampliou sua área cultivada em 23%. Já a produção de feijão teve aumento de apenas aproximadamente 2% e queda na área plantada de 12%. E o arroz apontou queda de produção de cerca de 5% e de área cultivada de 8%.
Ao considerar apenas esses dados, é possível verificar que a agricultura industrial brasileira, detentora de grandes áreas de plantio, tem focado na produção de commodities, como soja e milho, que são importantes para a produção de combustíveis, ração animal e uma gama de produtos industrializados, como os ultraprocessados. No lado oposto, observa-se uma redução na área plantada de arroz e feijão, produtos base na alimentação nacional.
Consoante a questão da segurança alimentar brasileira, atualmente, pesquisas têm questionado a estimativa de que 70% dos alimentos consumidos no país são produzidos pela agricultura familiar. Um dos artigos que reavalia essa afirmativa foi publicado pelo Núcleo de Agronegócio Global do Insper em 2025, onde aponta que apesar da importância da agricultura familiar no cenário nacional, pode ser questionável o quanto esse setor leva de comida à mesa do brasileiro.
Para efeito de averiguação dessas informações publicadas pelo Insper, foram levantados dados de produção de alguns alimentos que são comumente encontrados na alimentação dos brasileiros. Os cálculos foram realizados a partir dos dados disponíveis no Censo Agropecuário de 2017, onde se comparou a porcentagem de quantidade de alimentos produzidos pela agricultura familiar e agricultura não familiar.
Quantidade de alimentos produzidos pela agricultura familiar versus agricultura não familiar.
Produtos da lavoura | Produção pertencente a agricultura familiar (%) | Produção não pertencente a agricultura familiar (%) |
Açaí | 79 | 21 |
Banana | 49 | 51 |
Cacau | 57 | 43 |
Caju | 63 | 37 |
Alface | 64 | 36 |
Beterraba | 42 | 58 |
Tomate | 45 | 55 |
Arroz | 11 | 89 |
Batata inglesa | 12 | 88 |
Feijão preto | 42 | 58 |
Cebola | 58 | 42 |
Mandioca | 70 | 30 |
Trigo | 18 | 82 |
Fonte: Elaboração própria com base em dados do Censo Agropecuário do IBGE (2017).
Os dados revelam que entre os produtos selecionados, apenas arroz, batata inglesa e trigo apresentam números muito superiores de produção pela agricultura não familiar. Açaí e mandioca são fortemente produzidos pela agricultura familiar, tendo também outros itens na tabela que representam superioridade na quantidade de produção quando comparado a agricultura não familiar. E vale ressaltar que mesmo os produtos em que a agricultura não familiar tem maior produtividade, os números de produção da agricultura familiar são significativos, mostrando a importância desse grupo para a segurança alimentar nacional.
Outro ponto de destaque, é que de acordo com a Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (CONTAG), a agricultura familiar concilia suas práticas produtivas com a conservação dos recursos naturais e manutenção dos saberes tradicionais. Isso é observado nos dados analisados pela CONTAG, onde se verifica que 67% dos estabelecimentos agropecuários da agricultura familiar não fizeram uso de agrotóxicos no Brasil, representando alimentos mais saudáveis para a população e mais qualidade ambiental.
A partir dessa breve elucubração, pode-se perceber que de fato o agro é tech quando se observa o nível de tecnologia usada no campo para as adaptações as adversidades ambientais e a busca no aumento de produtividade. No entanto, ainda é necessário considerar as tecnologias advindas da agricultura tradicional e familiar, que mesmo não produzindo nas mesmas proporções que a agricultura industrial, gera maior diversidade alimentar, comida mais saudável e com muito menos impactos ao meio ambiente.
A agricultura industrial realmente tem sido pop, impulsiona a economia do Brasil e é um dos maiores exportadores de commodities do mundo. Contudo, não é tão popular quanto a agricultura familiar, uma vez que essa responde a 67% das ocupações em atividades agropecuárias no Brasil de acordo com o IBGE, mesmo possuindo apenas 23% das terras para produção agrária no Brasil.
O agro está em quase tudo que é produzido e consumido, mas talvez a forma da agricultura industrial estar em tudo deva ser redimensionada, tendo maior atenção a preservação do meio ambiente, menos áreas de monocultura, maior investimento em agroflorestas, menos produção e consumo de alimentos ultraprocessados e valorização dos alimentos orgânicos, livres de altas doses de veneno. Não se esquecendo de abrir mais espaço para a necessária reforma agrária.

Referências Bibliográficas
ASSOCIAÇÃO DE OLHO NO MATERIAL ESCOLAR. Quem somos. De Olho no Material Escolar, 2026.
COMPANHIA NACIONAL DE ABASTECIMENTO. Portal de informações agropecuárias. CONAB, 2026.
CONFEDERAÇÃO NACIONAL DOS TRABALHADORES RURAIS AGRICULTORES E AGRICULTORAS FAMILIARES. Anuário estatístico da agricultura familiar. Ano 4: CONTAG, 2025.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo Agropecuário 2017. IBGE, 2017.
SANTOS, A. D. G.; SILVA, D. V.; MACIEL. K. N. A campanha publicitária “Agro é tech, agro é pop, agro é tudo”, da Rede Globo de Televisão, como difusora da propaganda sobre o agronegócio no Brasil. Revista Eptic, v.21, n.1, p.46-61, 2019.
UEDA, B. E.; CRUZ, G. M.; CARDOSO, V. M. A agricultura familiar produz 70% dos alimentos consumidos pelos brasileiros? Insper Agro Global, 2025.




Parabéns pela matéria! Este conteúdo trabalhei com meus alunos de 5° ano fundamental em Itu.
Muito bom!