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ESTAMOS EM DIÁSPORA: ESU

  • Foto do escritor: Mariele Santos
    Mariele Santos
  • há 6 dias
  • 4 min de leitura

Atualizado: há 4 dias

Estamos em diáspora: Esu — o início, o começo, aquele que vem primeiro. Os arquétipos de Esu traduzem a existência humana, a própria diáspora. São tantas fábulas para traduzir esse arquétipo que ele ainda permanece um mistério habitado. Em sua homenagem, sentida no meu peito, abro 2026 com este texto, contando um pouco sobre minha visão de Esu, tentando utilizar a arte das palavras para traduzir o que se passa no sentir Esu.


Arte: Yaya Ferreira
Arte: Yaya Ferreira

O famoso ditado iorubá, frequentemente citado na cultura afro-brasileira, tem ocupado minha mente há meses. Sobre ele quero falar.


Esu samba no fio da navalha e mora na casca da lima.


Dono da palavra, da transformação e da mudança, nele contém tudo: passado, presente e futuro. Nele ecoa seu destino atemporal. Nada é por acaso; está tudo entrelaçado. Aquilo que lançamos no mundo sempre irá reverberar, transcender — como se tivéssemos em todo tempo registrando a frequência da nossa existência. Sendo início, meio e fim, como uma roda gigante cíclica e não linear, Esu nunca será uma linha reta com começo e fim definido.

Ele ensina a pedagogia da encruzilhada dos possíveis caminhos, transgredindo os padrões coloniais. Foi um — se não o único — dos poucos orixás que não foi completamente sincretizado pela Igreja, pelo fato de não conseguir se traduzir em uma única imagem, em um único significado. Sendo inventor de vários seres, fenômenos educacionais, existências e articulações, Esu permanece irredutível. A ele, assim como no livro A Pedagogia da Encruzilhada, ofereço um balaio de conceitos claros e ao mesmo tempo misteriosos.

Esu é uma tecnologia de unir um monte de conceitos com o desejo de inventar um mundo inesgotável de possibilidades — o caos necessário para toda evolução. As palavras soltas no ar e a paciência de juntá-las todas sem uma cronologia do tempo colonial.


Na encruzilhada do sentir


Pensar Esu é pensar o deslocamento como condição permanente. Não é nostalgia pela origem — é reconhecimento de que a diáspora nos refaz a cada passo. Esu nos habita porque somos, todos nós, encruzilhadas vivas: corpos que carregam múltiplas memórias, línguas que se chocam e se reinventam, desejos que não cabem em uma só narrativa.

O ditado iorubá — Esu samba no fio da navalha e mora na casca da lima — é uma imagem de risco e doçura simultâneos. A navalha é corte, é perigo, é precisão. A casca da lima é ácida, é proteção, é aquilo que envolve o suco sem deixar escapar. Esu dança nesse limiar: entre o que machuca e o que alimenta, entre o que separa e o que une. Ele nos ensina que a vida não é conforto — é negociação constante com as forças que nos cercam.


Palavra e Transformação


Esu é dono da palavra porque sabe que nomear é criar. Cada palavra é um ato de magia: ela traz para o mundo aquilo que antes estava apenas no desejo, na intuição, no silêncio. Por isso a Igreja não conseguiu sincretizá-lo: Esu não cabe em Santo Antônio ou em nenhum santo único. Ele é o próprio ato de tradução, a própria recusa de ser fixado. Cada terra o chama de um jeito; cada povo o reinventa. Isso não é fraqueza — é potência.

A transformação que Esu carrega não é mágica vaga. É trabalho. É o trabalho de pegar os fragmentos da vida — as dores, as alegrias, as contradições — e tecer com eles um novo sentido. É a pedagogia de quem aprendeu a viver em trânsito, a fazer casa onde não há casa, a encontrar beleza nas cicatrizes.


O Tempo Cíclico e a Responsabilidade


Tudo está entrelaçado, que aquilo que lançamos no mundo sempre irá reverberar. Isso é profundo. Significa que vivemos em um tempo de consequências — não o tempo linear e progressista do colonialismo (que promete um futuro melhor se apenas obedecermos), mas um tempo circular onde cada ato volta, se transforma, nos encontra novamente. É um tempo de responsabilidade ética: sabemos que nossas palavras e gestos importam porque ecoam indefinidamente.

Esu nos lembra disso. Ele é o guardião da frequência que emitimos. Por isso é tão importante cuidar da palavra, do pensamento, da intenção. Não por moralismo, mas porque vivemos em um universo de reverberação mútua.


Tecnologia de Possibilidades


Chamar Esu de tecnologia é preciso. Não é máquina fria, mas um conjunto de práticas, símbolos e saberes que permite criar encontros, abrir caminhos, inventar futuros. Esu reúne o que parecia incompatível: o caos e a ordem, o risco e o cuidado, a tradição e a inovação. Ele nos mostra que a evolução exige desordem — não a desordem destrutiva, mas a desordem criativa, aquela que permite que novas formas nasçam.


Paciência e Cronologia


“As palavras soltas no ar e a paciência de juntar todas sem uma cronologia de tempo colonial”. Isso é resistência epistêmica. É recusar o tempo que nos foi imposto e criar nosso próprio ritmo de compreensão. É ouvir as histórias que não cabem em datas, que se repetem e se transformam, que vivem no presente porque nunca terminaram de acontecer.

Essa paciência é também um ato político. Num mundo que nos quer rápidos, consumidores, produtivos, Esu nos convida a desacelerar, a escutar, a tecer com cuidado.

Que seja um ano de encruzilhadas conscientes. Que saibamos invocar Esu não para escapar das dificuldades, mas para aprender a dançar com elas. Que nossas palavras sejam oferendas — sementes lançadas no mundo com a certeza de que germinarão em terras que não conhecemos. Que reconheçamos, em cada bifurcação do caminho, a presença daquele que vem primeiro, que abre a porta, que nos lembra: somos diáspora, somos encruzilhada, somos possibilidade.


Fonte: model @ohizjnr
Fonte: model @ohizjnr

Que esu seja seus olhos,


Laroyê Esu,


Laroyê Esu,


Laroyê Esu!

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